Oceano Pacífico
"Há anos sem fim que oiço, naquele lugar, a mesma voz tranquila falar no mesmo tom, usando as mesmas pausas de sempre. O prodígio tem um nome e um efeito incrivelmente pacificador. O barulho das ondas com música em fundo contagia e transporta-nos imediatamente para outro tempo e outro espaço. A voz branda e grave de João Chaves atira-nos para um passado remoto, uma idade em que a vida se vivia de outra maneira e nada nem ninguém podia adivinhar o rumo que teria.
Lembro-me de ouvir aquela voz de culto quando tinha dezassete anos e, depois, de forma mais avulsa aos vinte e, uma vez por outra, aos trinta. Não sei há quantos anos existe o Oceano Pacífico mas, se me perguntassem, diria desde sempre. Não imagino como seja o João Chaves pois nunca consegui dar uma cara àquela voz nem uma imagem àquele som que, para mim, mudam conforme os estados de espírito . A voz e a música de João Chaves são uma espécie de banda sonora de longa metragem. Acompanham o filme inteiro de uma vida. Da nossa vida.
O som do genérico é tão aconchegante como o sótão de madeira de casa de uma avó onde ficam guardadas para sempre as fotografias de família, os fatos antigos e todos os tesouros da nossa infância. A voz que anuncia as músicas e pontua as noites soa infinitamente familiar e tudo parece tão perfeito àquela hora que nos esquecemos que estamos a voltar. Que o melhor vai ficando para trás.
Não sei bem se gosto de todas e cada uma das músicas que passam no Oceano Pacífico mas também não me parece importante saber. O programa vale, acima de tudo, pela conjugação daquela voz inconfundível e daquele som envolvente. Durante um par de horas o carro pode deslizar pela estrada sem nos darmos conta. Não há cansaço, não há nostalgia, não existe nada para além do momento."
in Revista Pública, 10 de Setembro 2000
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sábado, 2 de abril de 2011
sexta-feira, 25 de março de 2011
25 Anos do Oceano pacifico
Oceano Pacífico" faz 25 anos
15 | 10 | 2009 08.47H
Faz hoje 25 anos que estreava o Oceano Pacífico da RFM. Marcos André foi a voz que se ouviu naquele que é um dos mais antigos programas de rádio portuguesa. Depois veio o João Chaves, que ouvimos até hoje. Não sou desse tempo, mas sou de outros. O que não é de espantar já que a inconfundível calma do João e as músicas extraordinárias do Oceano atravessam gerações. Muitos estudaram noite dentro, muitos namoraram e depois casaram com a RFM by night. Porque continuamos anos e anos seguidores de tudo isto?
Talvez porque se atinge um estado de alma que nos agrada, descontrai e faz felizes. E explicar mais do que isto é impossível. Continue por muitos e bons anos. Amanhã comemoramos com mais intensidade a data.
Na Pousada de Sta Marinha, em Guimarães o João Chaves é o anfitrião de mais uma noite intimista. O Miguel Gameiro (Pólo Norte) junta-se à festa. Se puder aparecer, lá o esperamos para apagar as velas. E domingo, o Cruzeiro do Oceano parte pelos mares. Mais uma viagem, depois de tantas que fazemos sem sair do lugar.
(Crónica de Joana Cruz)
Crónica de Joana Cruz - Destak
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Vinte anos a embalar as noites de milhares de portugueses
A longevidade do Oceano Pacífico torna-o um caso à parte no panorama das rádios portuguesas. Com a primeira edição a ir para o ar a 15 de Outubro de 1984, o programa soube manter-se fiel aos seus princípios fundadores, e jamais se afastou da rota definida pelo seu timoneiro - o locutor João Chaves, responsável pelas quatro horas mais suaves da RFM.
Celebrar os 20 anos deste programa, iniciado ainda nos tempos da Renascença FM, é celebrar um conceito que persiste sem rectificações de modas e tendências, preocupado apenas com a sua chave simples e original: «Música calma e de qualidade para relaxar as pessoas.» Não é preciso mais, não há grandes segredos e teorias. E a prová-lo está a média diária de ouvintes, em pleno ano de 2004: entre 100 e 150 mil pessoas.
Numa apropriada comemoração, João Chaves convidou a equipa da RFM, alguns amigos e ainda diversos fãs para uma esplêndida viagem pelo rio Douro, com partida no cais de Gaia e chegada à Vila do Pinhão. Foram horas de tranquilidade ao som de alguns temas que celebrizaram o programa, atravessando-se paisagens magníficas e as três barragens que pontuam o percurso. (...)
Vinte anos de Oceano Pacífico, vinte anos sem mexer na ideia. E o seu autor apresenta-se calmo, desassombrado, poupando as palavras como o faz todos os dias entre as 22.00 e as 2 da manhã. «O programa começou sem um ciclo de vida definido», explicou João Chaves.
Surgiu para criar uma alternativa à televisão, já na altura o grande obstáculo a um serão mais pacífico. «Acho que as pessoas gostam, ao fim de um dia de trabalho, de se deixarem levar por canções calmas, baladas, algo que lhes dê um pouco de tranquilidade e romantismo.» Esse romantismo que levou alguns dos ouvintes a iniciarem relações ao som de Prince, Procul Harum, The Korgis, Cars ou Roxy Music. «Hoje em dia quem ouve o programa são as mesmas pessoas dos anos 80, e nalguns casos os filhos deles, a quem foi passado o gosto.»
João Chaves referiu ainda a tendência que existe na rádio de se copiarem os modelos de sucesso, o que contribui para uma uniformização de conteúdos. «Este já foi o programa mais imitado da rádio portuguesa», assegura o locutor. Mas os clones foram-se, enquanto o Oceano continuou pacífico.
Ricardo Jorge Fonseca / DN, 25/10/2004
Programa de rádio Oceano Pacifico - 20 anos
Celebrar os 20 anos deste programa, iniciado ainda nos tempos da Renascença FM, é celebrar um conceito que persiste sem rectificações de modas e tendências, preocupado apenas com a sua chave simples e original: «Música calma e de qualidade para relaxar as pessoas.» Não é preciso mais, não há grandes segredos e teorias. E a prová-lo está a média diária de ouvintes, em pleno ano de 2004: entre 100 e 150 mil pessoas.
Numa apropriada comemoração, João Chaves convidou a equipa da RFM, alguns amigos e ainda diversos fãs para uma esplêndida viagem pelo rio Douro, com partida no cais de Gaia e chegada à Vila do Pinhão. Foram horas de tranquilidade ao som de alguns temas que celebrizaram o programa, atravessando-se paisagens magníficas e as três barragens que pontuam o percurso. (...)
Vinte anos de Oceano Pacífico, vinte anos sem mexer na ideia. E o seu autor apresenta-se calmo, desassombrado, poupando as palavras como o faz todos os dias entre as 22.00 e as 2 da manhã. «O programa começou sem um ciclo de vida definido», explicou João Chaves.
Surgiu para criar uma alternativa à televisão, já na altura o grande obstáculo a um serão mais pacífico. «Acho que as pessoas gostam, ao fim de um dia de trabalho, de se deixarem levar por canções calmas, baladas, algo que lhes dê um pouco de tranquilidade e romantismo.» Esse romantismo que levou alguns dos ouvintes a iniciarem relações ao som de Prince, Procul Harum, The Korgis, Cars ou Roxy Music. «Hoje em dia quem ouve o programa são as mesmas pessoas dos anos 80, e nalguns casos os filhos deles, a quem foi passado o gosto.»
João Chaves referiu ainda a tendência que existe na rádio de se copiarem os modelos de sucesso, o que contribui para uma uniformização de conteúdos. «Este já foi o programa mais imitado da rádio portuguesa», assegura o locutor. Mas os clones foram-se, enquanto o Oceano continuou pacífico.
Ricardo Jorge Fonseca / DN, 25/10/2004
Programa de rádio Oceano Pacifico - 20 anos
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Os Programas de Rádio Que Resistem ao Tempo
No ar há mais de uma década
Cinco Minutos de Jazz, Lugar ao Sul, Íntima Fracção, Oceano Pacífico, Grande Júri e Repórter da História são programas radiofónicos. Em comum têm um passado com, no mínimo, uma década
Não há receitas mágicas nem universais que determinem o êxito de um programa. É a conclusão que se pode retirar da análise de cada um dos programas de rádio que, em Portugal, têm resistido à erosão do tempo e se mantêm no ar, indiferentes à idade. Entre músicas e palavras, são um exemplo de longevidade.
Cinco Minutos de Jazz, Lugar ao Sul, Íntima Fracção, Oceano Pacífico e Grande Júri são, neste momento, os programas em exibição com mais tempo de vida, todos com mais de 13 anos. A rubrica O Repórter da História, com quase 25 anos, é outro exemplo de longevidade.
Mas, afinal, haverá ou não alguma explicação para a longevidade? Cada programa apresenta a sua própria versão, mas as reacções positivas dos ouvintes são um facto incontornável. Por outro lado, cada programa conseguiu criar, ao longo dos anos, um ambiente próprio a que os ouvintes se acostumaram e que continuam a procurar em cada emissão. Para os responsáveis por estes programas este é, sem dúvida, um dos factores mais importantes para o sucesso e continuação das emissões. O horário e a duração também ajudam a explicar a longevidade. Depois há as particularidades de cada um, que marcam a diferença e que fazem com que cada programa seja único.
As histórias de sucesso
Cinco Minutos de Jazz é actualmente, depois da suspensão do Em Órbita (na Antena 2), o programa de rádio mais antigo no ar. Tem 35 anos, apesar de ter estado suspenso entre 1975 e 1983. Trinta e cinco anos dedicados a divulgar a música jazz em Portugal. E "é a força, a longevidade e a verdade do jazz que explicam o sucesso e a longevidade do programa", afirma José Duarte, o seu responsável. Mas a fórmula, e principalmente a sua duração, é determinante. "As pessoas gostam porque não as maça" (o programa dura em média cerca de cinco minutos, de onde o nome). João Coelho, director da Antena 1, que emite o programa desde 3 de Junho de 1993, também salienta este facto. "O formato breve, sendo pedagógico e divulgador, é o ideal para inserir na grelha, devido à sua flexibilidade."
A longevidade é apenas um dos marcos do Cinco Minutos de Jazz. José Duarte gosta de acrescentar outro. No decorrer de todos estes anos, "o programa conseguiu o respeito pelo jazz. Nos anos 60 [quando o programa começou] as pessoas chegavam mesmo a ser malcriadas".
Rafael Correia, o autor e responsável pelo programa Lugar ao Sul, da Antena 1, prefere não falar do sucesso do programa, mas sim do seu valor intrínseco. "Sucesso têm as novelas", afirma. A mais-valia do programa reside, segundo Rafael Correia, no contacto com a verdadeira realidade do país, o "Portugal profundo", uma expressão que é agora muito recorrente, mas que quando o programa começou, há 21 anos, era ainda desconhecida. Para João Coelho, este é um programa importante na grelha da emissora para o fim-de-semana. O Lugar ao Sul é, juntamente com a Feira Franca e com o Margens D'Ouro, uma das peças da trilogia de programas deste canal dedicados ao contacto com o "país real".
Tocar as pessoas e estar atento
Para Francisco Amaral, autor e apresentador do Íntima Fracção, o mais importante é conseguir chegar às pessoas. E, "se há algum segredo para o sucesso do programa, é a ligação entre várias épocas de música e textos que tocam as pessoas". Por outro lado, é o próprio ambiente que se cria e que faz com que haja ouvintes fiéis, com gravações de anos do programa, acrescenta Francisco Amaral. Mas se calhar o sucesso do programa, da TSF, reside no mais óbvio: "É um programa sincero que gosto de fazer e se calhar por isso é que há pessoas que o ouvem."
Para João Chaves, o apresentador e responsável pelo programa Oceano Pacífico, no ar há quase 17 anos, a música é o ingrediente mais importante do programa que mantém na RFM e nele reside o seu sucesso. "Acima de tudo é a música que faz com que o programa tenha sucesso. Toco as músicas que as pessoas gostam", afirma, mas salienta a importância da sua locução, com o mesmo ritmo das baladas que escolhe e que, em conjunto, criam o ambiente próprio do programa. Depois, há o próprio horário. João Chaves tem consciência da importância deste facto, e refere-o: "É neste horário [à noite] que as pessoas estão mais receptivas." Pedro Tojal, director de programas da RFM, acrescenta mais alguns dados, salientando a importância de não se ficar parado no tempo. "É preciso estar sempre atento aos gostos das pessoas, até porque o programa, se calhar, já abrange duas gerações com gostos diferentes."
O programa Grande Júri é uma das imagens de marca da TSF, onde é emitido desde o primeiro dia da estação, que iniciou oficialmente as emissões em 1989. Carlos Andrade, um dos actuais entrevistadores, juntamente com Carlos Magno, afirma que é o "feedback" que recebe que faz com que o programa tenha razão de ser. Mas o que, concretamente, faz o sucesso do programa é mais difícil de explicar. "É um conjunto de ingredientes de natureza subjectiva", começa por afirmar Carlos Andrade, que é também o director da TSF. Entre esses, destaca a competência dos entrevistadores, os actuais e os anteriores, e o próprio factor história, pois "é um programa consolidado".
Outra medida do sucesso é, para Carlos Andrade, a boa taxa de aceitação dos convites pelas personalidades convidadas. Até porque sente que "os 'decisores' reconhecem imediatamente o nome do programa e esse é um dos principais motivos por que aceitam participar".
O Repórter da História não é propriamente um programa, é uma pequena rubrica de efemérides que não dura mais do que quatro minutos. No entanto, já está no ar há quase 25 anos. Para Zuzarte Reis, o criador do programa e autor dos textos, o que contribui para a longevidade desta emissão é precisamente a sua curta duração. "Não chateia", ironiza Zuzarte Reis. "O programa chama a atenção do ouvinte para os assuntos históricos sem entrar em grandes pormenores, não maçando desta forma os ouvintes", explica, agora a sério, Zuzarte Reis.
Ainda este ano (em Dezembro), também o programa Café da Manhã, que a RFM emite diariamente entre as 6h00 e as 10h30, vai completar uma década de emissões. E em Janeiro de 2002 será a vez do Bom Dia, de José Candeias, na Renascença, se juntar ao clube dos programas de rádio com uma história de uma década para contar.
B.I. dos Programas
Domingo, 22 de Abril de 2001
Cinco Minutos de Jazz
Antena 1
2ª a 6ª, às 00h15
Permanência. Para José Duarte esta é a palavra que caracteriza o Cinco Minutos de Jazz, o programa que já dura há 35 anos (embora suspenso entre 7 de Novembro de 1975 e 31 de Dezembro de 1983). Dedica-se a divulgar a música jazz em Portugal, até porque, para José Duarte,"o jazz é uma língua" que se pode ensinar. E desde 21 de Fevereiro de 1966 o programa já formou várias gerações. "O problema é que as sucessivas gerações namoram, mas não casam com o jazz", lamenta.
Lugar ao Sul
Antena 1
Sábados, das 09h00 às 11h00
No Lugar ao Sul as palavras reinam há 21 anos (a primeira emissão foi em Janeiro de 1980), sempre na Antena 1. As palavras são das "gentes" de Portugal, já que as do apresentador e autor do programa, Rafael Correia, são poucas. Cada sábado, ao longo de duas horas, Rafael Correia pinta mais um retrato da "verdadeira" realidade de Portugal, apresentando as histórias das vozes que normalmente permanecem longe da atenção dos meios de comunicação social. É um programa que procura descobrir e dar a conhecer os cidadãos do "Portugal Profundo".
Íntima Fracção
TSF
Domingos, da 01h00 às 03h00
Um programa também se constrói com silêncios e o Íntima Fracção, que acabou de comemorar 17 anos de vida (a sua primeira emissão foi a 8 de Abril de 1984 na Antena 1, mas desde 1989 que está na TSF), é um bom exemplo. "Pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir" é o lema do programa de Francisco Amaral que conjuga a música, as palavras (com destaque para os textos lidos no programa), os sons e até os silêncios, um dos grandes inimigos da rádio. É um programa "ensonado", diz Francisco Amaral, já que não se dirige directamente às pessoas. Pretende antes ser um suporte para deixar voar a imaginação.
Oceano Pacífico
RFM
Domingo a sexta, das 22h00 à 01h00
Adormecer ao som das baladas do Oceano Pacífico é já um hábito para muitos portugueses. Desde Outubro de 1984 (primeiro na Renascença e a partir de Janeiro de 1987 na RFM) que João Chaves continua a recriar no seu programa um ambiente calmo, aquele que as pessoas procuram depois de cada dia de trabalho. As baladas que João Chaves coloca no ar permitem recordar e reviver outros tempos. É um programa para ouvir calmamente ou conjugar com outras tarefas. Ao critério do ouvinte.
Grande Júri
TSF
Sábados, às 12h00
Muitas vezes o programa ultrapassa a própria TSF, onde está desde o início da estação. Não é raro que excertos das entrevistas semanais sejam reproduzidos por outros órgãos de comunicação. É que se o Grande Júri não é por vocação um programa de entrevistas políticas, cerca de 95 por cento dos convidados são políticos. Actualmente, as entrevistas são conduzidas por Carlos Andrade e por Carlos Magno, mas já passaram pelo programa nomes como Teresa de Sousa, Júlio Isidro, Emídio Rangel, Miguel Sousa Tavares ou Margarida Marante.
Repórter da História
Rádio Renascença
Incluído no programa Boa Tarde, das 13h00 às 15h00
São apenas quatro minutos, mas que se repetem há quase 25 anos (começou no Outono de 1976). Todos os dias o repórter da História faz uma viagem no tempo e tanto pode recuar anos como séculos. E, em directo, faz a reportagem de mais um momento histórico. O repórter da História é um viajante no tempo que recria para o ouvinte todo o ambiente da época abordada em cada rubrica. E é essa encenação presente no programa que faz com que o apresentador seja um actor. Rui de Carvalho é o repórter de serviço.
Por Teresa Matos / Público, 22 de Abril de 2001
Cinco Minutos de Jazz, Lugar ao Sul, Íntima Fracção, Oceano Pacífico, Grande Júri e Repórter da História são programas radiofónicos. Em comum têm um passado com, no mínimo, uma década
Não há receitas mágicas nem universais que determinem o êxito de um programa. É a conclusão que se pode retirar da análise de cada um dos programas de rádio que, em Portugal, têm resistido à erosão do tempo e se mantêm no ar, indiferentes à idade. Entre músicas e palavras, são um exemplo de longevidade.
Cinco Minutos de Jazz, Lugar ao Sul, Íntima Fracção, Oceano Pacífico e Grande Júri são, neste momento, os programas em exibição com mais tempo de vida, todos com mais de 13 anos. A rubrica O Repórter da História, com quase 25 anos, é outro exemplo de longevidade.
Mas, afinal, haverá ou não alguma explicação para a longevidade? Cada programa apresenta a sua própria versão, mas as reacções positivas dos ouvintes são um facto incontornável. Por outro lado, cada programa conseguiu criar, ao longo dos anos, um ambiente próprio a que os ouvintes se acostumaram e que continuam a procurar em cada emissão. Para os responsáveis por estes programas este é, sem dúvida, um dos factores mais importantes para o sucesso e continuação das emissões. O horário e a duração também ajudam a explicar a longevidade. Depois há as particularidades de cada um, que marcam a diferença e que fazem com que cada programa seja único.
As histórias de sucesso
Cinco Minutos de Jazz é actualmente, depois da suspensão do Em Órbita (na Antena 2), o programa de rádio mais antigo no ar. Tem 35 anos, apesar de ter estado suspenso entre 1975 e 1983. Trinta e cinco anos dedicados a divulgar a música jazz em Portugal. E "é a força, a longevidade e a verdade do jazz que explicam o sucesso e a longevidade do programa", afirma José Duarte, o seu responsável. Mas a fórmula, e principalmente a sua duração, é determinante. "As pessoas gostam porque não as maça" (o programa dura em média cerca de cinco minutos, de onde o nome). João Coelho, director da Antena 1, que emite o programa desde 3 de Junho de 1993, também salienta este facto. "O formato breve, sendo pedagógico e divulgador, é o ideal para inserir na grelha, devido à sua flexibilidade."
A longevidade é apenas um dos marcos do Cinco Minutos de Jazz. José Duarte gosta de acrescentar outro. No decorrer de todos estes anos, "o programa conseguiu o respeito pelo jazz. Nos anos 60 [quando o programa começou] as pessoas chegavam mesmo a ser malcriadas".
Rafael Correia, o autor e responsável pelo programa Lugar ao Sul, da Antena 1, prefere não falar do sucesso do programa, mas sim do seu valor intrínseco. "Sucesso têm as novelas", afirma. A mais-valia do programa reside, segundo Rafael Correia, no contacto com a verdadeira realidade do país, o "Portugal profundo", uma expressão que é agora muito recorrente, mas que quando o programa começou, há 21 anos, era ainda desconhecida. Para João Coelho, este é um programa importante na grelha da emissora para o fim-de-semana. O Lugar ao Sul é, juntamente com a Feira Franca e com o Margens D'Ouro, uma das peças da trilogia de programas deste canal dedicados ao contacto com o "país real".
Tocar as pessoas e estar atento
Para Francisco Amaral, autor e apresentador do Íntima Fracção, o mais importante é conseguir chegar às pessoas. E, "se há algum segredo para o sucesso do programa, é a ligação entre várias épocas de música e textos que tocam as pessoas". Por outro lado, é o próprio ambiente que se cria e que faz com que haja ouvintes fiéis, com gravações de anos do programa, acrescenta Francisco Amaral. Mas se calhar o sucesso do programa, da TSF, reside no mais óbvio: "É um programa sincero que gosto de fazer e se calhar por isso é que há pessoas que o ouvem."
Para João Chaves, o apresentador e responsável pelo programa Oceano Pacífico, no ar há quase 17 anos, a música é o ingrediente mais importante do programa que mantém na RFM e nele reside o seu sucesso. "Acima de tudo é a música que faz com que o programa tenha sucesso. Toco as músicas que as pessoas gostam", afirma, mas salienta a importância da sua locução, com o mesmo ritmo das baladas que escolhe e que, em conjunto, criam o ambiente próprio do programa. Depois, há o próprio horário. João Chaves tem consciência da importância deste facto, e refere-o: "É neste horário [à noite] que as pessoas estão mais receptivas." Pedro Tojal, director de programas da RFM, acrescenta mais alguns dados, salientando a importância de não se ficar parado no tempo. "É preciso estar sempre atento aos gostos das pessoas, até porque o programa, se calhar, já abrange duas gerações com gostos diferentes."
O programa Grande Júri é uma das imagens de marca da TSF, onde é emitido desde o primeiro dia da estação, que iniciou oficialmente as emissões em 1989. Carlos Andrade, um dos actuais entrevistadores, juntamente com Carlos Magno, afirma que é o "feedback" que recebe que faz com que o programa tenha razão de ser. Mas o que, concretamente, faz o sucesso do programa é mais difícil de explicar. "É um conjunto de ingredientes de natureza subjectiva", começa por afirmar Carlos Andrade, que é também o director da TSF. Entre esses, destaca a competência dos entrevistadores, os actuais e os anteriores, e o próprio factor história, pois "é um programa consolidado".
Outra medida do sucesso é, para Carlos Andrade, a boa taxa de aceitação dos convites pelas personalidades convidadas. Até porque sente que "os 'decisores' reconhecem imediatamente o nome do programa e esse é um dos principais motivos por que aceitam participar".
O Repórter da História não é propriamente um programa, é uma pequena rubrica de efemérides que não dura mais do que quatro minutos. No entanto, já está no ar há quase 25 anos. Para Zuzarte Reis, o criador do programa e autor dos textos, o que contribui para a longevidade desta emissão é precisamente a sua curta duração. "Não chateia", ironiza Zuzarte Reis. "O programa chama a atenção do ouvinte para os assuntos históricos sem entrar em grandes pormenores, não maçando desta forma os ouvintes", explica, agora a sério, Zuzarte Reis.
Ainda este ano (em Dezembro), também o programa Café da Manhã, que a RFM emite diariamente entre as 6h00 e as 10h30, vai completar uma década de emissões. E em Janeiro de 2002 será a vez do Bom Dia, de José Candeias, na Renascença, se juntar ao clube dos programas de rádio com uma história de uma década para contar.
B.I. dos Programas
Domingo, 22 de Abril de 2001
Cinco Minutos de Jazz
Antena 1
2ª a 6ª, às 00h15
Permanência. Para José Duarte esta é a palavra que caracteriza o Cinco Minutos de Jazz, o programa que já dura há 35 anos (embora suspenso entre 7 de Novembro de 1975 e 31 de Dezembro de 1983). Dedica-se a divulgar a música jazz em Portugal, até porque, para José Duarte,"o jazz é uma língua" que se pode ensinar. E desde 21 de Fevereiro de 1966 o programa já formou várias gerações. "O problema é que as sucessivas gerações namoram, mas não casam com o jazz", lamenta.
Lugar ao Sul
Antena 1
Sábados, das 09h00 às 11h00
No Lugar ao Sul as palavras reinam há 21 anos (a primeira emissão foi em Janeiro de 1980), sempre na Antena 1. As palavras são das "gentes" de Portugal, já que as do apresentador e autor do programa, Rafael Correia, são poucas. Cada sábado, ao longo de duas horas, Rafael Correia pinta mais um retrato da "verdadeira" realidade de Portugal, apresentando as histórias das vozes que normalmente permanecem longe da atenção dos meios de comunicação social. É um programa que procura descobrir e dar a conhecer os cidadãos do "Portugal Profundo".
Íntima Fracção
TSF
Domingos, da 01h00 às 03h00
Um programa também se constrói com silêncios e o Íntima Fracção, que acabou de comemorar 17 anos de vida (a sua primeira emissão foi a 8 de Abril de 1984 na Antena 1, mas desde 1989 que está na TSF), é um bom exemplo. "Pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir" é o lema do programa de Francisco Amaral que conjuga a música, as palavras (com destaque para os textos lidos no programa), os sons e até os silêncios, um dos grandes inimigos da rádio. É um programa "ensonado", diz Francisco Amaral, já que não se dirige directamente às pessoas. Pretende antes ser um suporte para deixar voar a imaginação.
Oceano Pacífico
RFM
Domingo a sexta, das 22h00 à 01h00
Adormecer ao som das baladas do Oceano Pacífico é já um hábito para muitos portugueses. Desde Outubro de 1984 (primeiro na Renascença e a partir de Janeiro de 1987 na RFM) que João Chaves continua a recriar no seu programa um ambiente calmo, aquele que as pessoas procuram depois de cada dia de trabalho. As baladas que João Chaves coloca no ar permitem recordar e reviver outros tempos. É um programa para ouvir calmamente ou conjugar com outras tarefas. Ao critério do ouvinte.
Grande Júri
TSF
Sábados, às 12h00
Muitas vezes o programa ultrapassa a própria TSF, onde está desde o início da estação. Não é raro que excertos das entrevistas semanais sejam reproduzidos por outros órgãos de comunicação. É que se o Grande Júri não é por vocação um programa de entrevistas políticas, cerca de 95 por cento dos convidados são políticos. Actualmente, as entrevistas são conduzidas por Carlos Andrade e por Carlos Magno, mas já passaram pelo programa nomes como Teresa de Sousa, Júlio Isidro, Emídio Rangel, Miguel Sousa Tavares ou Margarida Marante.
Repórter da História
Rádio Renascença
Incluído no programa Boa Tarde, das 13h00 às 15h00
São apenas quatro minutos, mas que se repetem há quase 25 anos (começou no Outono de 1976). Todos os dias o repórter da História faz uma viagem no tempo e tanto pode recuar anos como séculos. E, em directo, faz a reportagem de mais um momento histórico. O repórter da História é um viajante no tempo que recria para o ouvinte todo o ambiente da época abordada em cada rubrica. E é essa encenação presente no programa que faz com que o apresentador seja um actor. Rui de Carvalho é o repórter de serviço.
Por Teresa Matos / Público, 22 de Abril de 2001
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